sexta-feira, 11 de março de 2011

Sinésia Caldeira Bela

       

          










          
         

          Todos nós possuímos uma história, pois vivemos um presente que estabelece um movimento dialético com um passado que faz parte das nossas relações sociais. Por isso, se entende que, é através das nossas lembranças, da nossa trajetória, e principalmente, das nossas constantes relações com o ambiente que nos rodeia, como também por meio das diferentes relações estabelecidas com outros homens que construímos a história.
          No âmbito dessa discussão, verifica-se que a história da cidade de Irecê, assim como a própria história do nosso País é retratada a partir de uma única visão, o olhar do colonizador, pois, se entende que é a partir da ótica de alguns desbravadores que chegaram à cidade de Irecê, que a história do nosso município é explicada. E por isso, não há uma reflexão a partir da história, mas, relatos de algumas histórias sem levar em consideração o sujeito como construtor das mesmas, o sujeito histórico.
          Nesta perspectiva, se vê a importância de se falar em Sinésia Caldeira Bela, uma antiga moradora da cidade de Irecê, que teve grande importância na organização do atual bairro baixão de Sinésia. Pois, analisa-se que assim como a tradicional família Dourado, que tanto se ouve falar e prestigiar na cidade de Irecê, com nomes de ruas, praças, escolas e avenidas, faz-se necessário saber que Sinésia pode contribuir para o enriquecimento da história desta cidade, haja vista que a mesma cooperou para, e faz parte da história e historiografia deste município.
          Segundo Souza (2008),

[...] temos consciências de que não somos os únicos no mundo e, mais ainda, que todos nós tivemos nossos antepassados que se distanciaram há séculos e séculos do nosso hoje. Contar como foram seus passos, suas alegrias, suas tristezas, suas lutas, contar o seu dia-a-dia, cada instante do viver individual e social, fazer isso é uma impossibilidade. Isso, contudo, não impede que se reconheça que somos frutos de um esforço cotidiano do querer viver que cada um dos nossos antepassados desenvolveu. Conhecer esse passo é dever de cada um de nós. 
(SOUZA, 2008, p. 13).
                                     
          Sinésia Caldeira Bela foi uma mulher bastante conhecida na cidade de Irecê, e ainda é por algumas pessoas mais velhas do bairro baixão de Sinésia, pois, conforme entrevistas realizadas com as suas duas filhas Joselita Maria da Conceição e Adelícia Caldeira da Silva, sua mãe era uma pessoa bastante caridosa, e tinha uma relação amistosa com todas as pessoas do bairro, o que a tornava uma pessoa significativamente querida na comunidade.
          Segundo suas filhas,

[...] a convivência dela [Sinésia Caldeira Bela] era convivência com deus e o mundo, daqui até ni Irecê, era convivência dela era com deus e o mundo... ela nunca teve problema com pessoa nenhuma né...e a convivência dela era ajudar as pessoas de necessidade, ela não podia ver uma pessoa sofrer pra ela num ajudar, se ela visse uma pessoa ali nu, ela tinha que ajudar, se ela visse passando fome, ela tinha que ajudar, ela num podia ver a pessoa sofrer né, e foi uma pessoa que apenas deu muita saúde prá muitas pessoa, aqui, ni irecê, no baixão né, pessoas que vinha de fora, doente, ela dava diz o remédio né pelo saber dela que ela tinha ela dava remédio a muitas pessoa [...] 
(Joselita Maria da Conceição, Março de 2010).

[...] era uma pessoa qui qui tinha o coração muito bom, ela não podia ver gente sofrer de jeito nenhum, que ela ajudava o povo [...] 
(Adelícia Caldeira da Silva, Março de 2010)


          Humilde, batalhadora, caridosa. Estas são algumas características de Sinésia Caldeira Bela. Um exemplo de mulher negra, que trabalhava na roça para dar o sustento da sua família, era uma mulher avó, avô, mãe, pai, tia, tio. Ela era uma mulher batalhadora e preocupada com a subsistência da sua família, e por isso não mediu esforços, não fugiu do trabalho árduo, procurou na medida do possível lutar pela sobrevivência dos seus familiares.
          Sinésia foi um exemplo de vida para os seus filhos e filhas, como também para os seus netos e netas, e continua sendo para os seus bisnetos, e as novas gerações que compõem a sua família, assim como para aquelas pessoas que conheceram a bravura e a garra de Sinésia durante a sua vida.
          A história nos mostra que, para entender o que aconteceu num determinado percurso histórico, faz-se necessário analisar, e principalmente investigar a história para compreendê-la. Por isso, para entender a história de Sinésia Caldeira Bela, é preciso analisar o legado construído por ela durante sua vida.
          Sinésia chegou à Irecê, nos seus primeiros meses de vida, ou seja, ela era recém-nascida e tinha aproximadamente 6 meses de idade. Conforme depoimento de suas filhas Joselita Maria da Conceição (79 anos), Adelícia Caldeira da Silva (71 anos), e parentes mais próximos da família, Sinésia, chegou a estas terras juntamente com o seu pai, Sabino André Caldeira, o mesmo Sabino Badaró, que Rubem (1997) cita em seu livro Irecê: História, casos e lendas; história, documentário. Quanto à mãe de Sinésia, sabe-se que a mesma se chamava Jesuína Maria Caldeira, no entanto não existem maiores informações sobre ela.
          Na época em que Sinésia e seu pai já se encontravam nessas terras, Irecê se chamava Caraíbas, ou como bem afirma Rubem (1997) "lagoa das caraybas, como era conhecida por uns, ou Brejo das Caraíbas, como era conhecida por outros, ou simplesmente Caraíbas".
          Aqui, ela Sinésia se casou duas vezes, mas não foi propriamente um casamento como o que conhecemos hoje, com cerimônia numa igreja, ou mesmo no chamado, casamento civil. Seu primeiro marido se chamava Francisco de Oliveira Bela, e o segundo Bejamin Francisco da Silva.
          Já casada e com filhos Sinésia se instalou com a sua família num local onde os mesmos denominaram Pau-d’arco, com o passar do tempo ficou conhecido como Fazenda Baixão de Sinésia, e mais tarde recebe a denominação apenas de bairro Baixão de Sinésia. Acredita-se que antes de Sinésia vir para o lugar que hoje é o bairro Baixão de Sinésia, ela tenha residido em algum outro ponto geográfico da atual cidade de Irecê, porém não existem maiores informações sobre essa passagem de Sinésia por outros espaços desta região.
          No entanto, sabe-se que o bairro Baixão de Sinésia era um local ainda nativo, sem desenvolvimento e com a carência de serviços básicos como, instalações elétricas, encanação de água, serviço de saúde, saneamento básico, e principalmente sem escola.
          Das duas relações maritais que Sinésia teve nasceram Joselita Maria da Conceição, Adolfo e Angelina Maria da Conceição, ambos filhos de Francisco de Oliveira Bela. Nasceram também, Adelícia Caldeira da Silva e Amaro Caldeira da Silva, ambos filhos de Bejamin Francisco da Silva.
          Contraditoriamente, apesar dos dois relacionamentos que dona Sinésia teve, no decorrer dos seus últimos dias de vida, a mesma criou os seus filhos sozinha. Primeiro porque ficou viúva do primeiro marido muito cedo, segundo porque, o segundo marido não assumiu propriamente um papel de pai para os seus filhos. Ficando a cargo de dona Sinésia o sustento, e a manutenção da sua família.
          Não se sabe ao certo, se dona Sinésia durante a sua trajetória de vida teve outros filhos, pois não existem documentos e registros que possam confirmar o possível nascimento de outros filhos da mesma. O que se pode afirmar atualmente é que apenas três dos seus cinco filhos citados, se encontram vivos, os quais são: Joselita Maria da Conceição, Adelícia Caldeira da Silva e Amaro Caldeira da Silva. Segundo os filhos de Sinésia, a sua mãe faleceu em 1984 com 82 anos de idade, devido problemas de saúde.
          O bairro Baixão de Sinésia era uma referência em festejos cultural-populares na antiga Caraíbas, atual cidade de Irecê, ao passo em que o "reisado", o "candomblé", e o "caruru" eram as principais festividades que dona Sinésia e os seus familiares realizavam. No entanto, entre as festividades realizadas atualmente, constata-se que somente o "reisado" ainda permanece na tradição dos moradores, mas não com tanta frequência como antigamente, ao tempo em que estes costumes estão sendo aos poucos desestruturados e esquecidos por grande parte dos moradores do bairro, como também pelos próprios familiares de Sinésia.
       Uma tradição tão relevante e ao mesmo tempo, característica do baixão de Sinésia não pode ficar no esquecimento, ao passo em que é também o próprio nome de Sinésia, e todo o trabalho realizado por seus familiares durante sua trajetória de vida, que vai sendo esquecido, pois, foi com a presença e incentivo dela nos festejos, principalmente no reisado, que o bairro ganhou destaque na cidade de Irecê.
          Diante disto, percebe-se que atualmente os próprios moradores do bairro baixão de Sinésia não conseguem compreender a importância de dona Sinésia para o município de Irecê, uma vez que muitas destas pessoas, principalmente os mais jovens, nem sabem quem foi Sinésia. Infelizmente, se não conhecem a história de Sinésia, concerteza não faz parte de seus conhecimentos a história do próprio bairro, que historicamente tem como referência a própria Sinésia.
          É neste contexto, que se vê a importância de se falar em Sinésia Caldeira Bela, para, através desta indignação com a atual história, contribuir para uma nova reescrita da história da cidade de Irecê que excluiu Sinésia do processo histórico de formação da mesma, ao passo em que, se pretende trazer ao conhecimento de todos os munícipes de Irecê, um pouco da história desta mulher negra que realmente fez história no município e deixou vestígios para a sua construção.
          Sinésia Caldeira Bela possui um espaço na história do município, mas se faz necessário deixar claro que não é objetivo deste trabalho transformá-la aqui numa heroína, e sim revelar, especialmente aos ireceenses, que outras pessoas , incluindo trabalhadores e trabalhadoras, construíram a história deste município e não apenas algumas poucas famílias da dita elite Ireceense, como os Dourado, por exemplo.
          Dessa forma, entende-se que apesar das mesmas não fazerem parte do centro das atenções financeiras, políticas, e, principalmente, econômicas do município, desenvolviam por meio dos seus moradores um modo de viver próprio, que não estão inseridos nos livros que retratam a história deste município, mas ainda se encontram na memória das pessoas mais velhas que conviveram e conheceram Sinésia Caldeira Bela. Por isso mesmo, faz-se necessário que seja escrita e socializada com a população do município de Irecê, para que as raízes do nosso povo ireceense não sejam esquecidas, mas sim valorizada e lembradas na história.
          Diante disso, se entende que a história não pode ser compreendida, e muito menos escrita sem buscar a sua objetividade. Ou seja, é preciso um esforço para registrar e analisar o passado e o presente sempre buscando o que a coisa é e não o que as pessoas querem que ela seja. Por isso, faz-se necessário que existam interpretações da história, no intuito desta se tornar valorizada perante a sociedade e, não simplesmente atender a uma parte desta sociedade.
          Neste contexto, analisa-se que, alguns livros que retratam a história de Irecê, infelizmente deixa uma parte da sociedade ireceense a mercê desta história. O que se percebe é a existência de uma história hierarquizada, onde, uma elite faz parte da história. Enquanto isso, os trabalhadores e, as pessoas simples que impulsionaram o desenvolvimento da cidade de Irecê, infelizmente são retratadas como alguém que esteve por aqui, e isso quando ainda se menciona alguma pessoa simples que participou do processo histórico de formação desta cidade.
          No livro, Irecê: História, casos e lendas; história, documentário, do escritor Jackson Rubem, é possível perceber uma menção sobre uma mulher chamada Sinésia, no capítulo que se intitula Cultura. Para quem conhece um pouco da trajetória de Sinésia Caldeira Bela, sabe, e, identifica que, aquele fragmento de texto se remete a mesma. No entanto, só aparece no texto, o nome Sinésia.
          Para a maioria da população de Irecê, e a sociedade em geral, Sinésia será uma pessoa qualquer, pois não aparece o seu sobrenome, e nem a sua história, e muito menos relatos sobre sua trajetória e estada em Caraíbas. Para aqueles que não sabem da importância de Sinésia Caldeira Bela para a história deste município, o nome Sinésia relatado no livro de Jackson Rubem não terá grande relevância, uma vez que, pode ser, conforme a interpretação de cada indivíduo, qualquer mulher chamada Sinésia que está presente no livro do referido autor.
          O que se percebe é que a história do município de Irecê tem um compromisso, com as pessoas que estão no poder, ou seja, com a família dita tradicional deste território, ofuscando assim, a contribuição de uma minoria trabalhadora que também participou do processo histórico de formação desta cidade. Contradizendo, a afirmação do principal expoente da história dessa cidade, quando o mesmo afirma que:

A função deste livro [ao se referir a Irecê: História, casos e lendas; história, documentário] é resgatar a memória de Irecê. É mostrar a verdade, somente a verdade, acerca da história da mundialmente conhecida Capital do Feijão, sem nenhum interesse em beneficiar a quem quer que seja [...] 
(RUBEM, 1997, p. 25)
 
          É importante salientar que a mulher não tinha muito espaço na sociedade na época de Sinésia, uma vez que muitos direitos e deveres sociais ainda não tinham sido conquistados pelas mesmas, que sofriam sérios preconceitos. Como por exemplo, o seu espaço se restringir aos afazeres domésticos, e a criação dos seus filhos, e isto era para uma elite, pois muitas mulheres, assim como Sinésia Caldeira Bela, trabalhavam arduamente em serviços pesados, como o trabalho na roça.
          Como bem afirma a sua filha, "minha mãe era uma pessoa muito excelente era uma pessoa que...vivia com todo mundo fazia muitas caridade ao povo era uma pessoa muito trabalhadeira na roça" (Adelícia Caldeira da Silva, Março de 2010).
          Portanto, investigar as memórias de Sinésia Caldeira Bela significa discutir uma história local que não está inserida nos livros da história do município de Irecê. É dar voz a uma pessoa que representa o povo, a massa, uma classe que esta submetida aos interesses de outras classes sociais. É, além disto, debater uma história local no território de Irecê, sobre uma mulher negra que teve um papel bastante relevante neste município, e que por isso, possui uma importante trajetória histórica que faz jus o seu conhecimento pela sociedade.
          Nesse sentido, a partir do momento em que as memórias de Sinésia Caldeira Bela chegar ao conhecimento da sociedade, e principalmente da população Irecense, entende-se que haverá outra maneira de interpretar a história de Irecê, ao passo em que, através deste trabalho busca-se contribuir com um novo capítulo para a história deste município.


REFERÊNCIAS



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HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. 26 ed. São Paulo: Companhia da Letras, 2008.


KONDER, Leandro. O que é dialética. São Paulo: Brasiliense, 2006. (Coleção primeiros passos; 23).


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MENESES, U.T.B. A história, cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. Rev. Inst. Est. Bras., SP, 34: 9-24, 1992. Disponível em: <http://www.ieb.usp.br/revista/revista034%5Crev034ulpianomenezes.pdf>. Acesso em: 03 de Novembro de 2010.


MUNANGA, Kabengele. O negro no Brasil de hoje. São Paulo: Global, 2006. (Coleção para entender).


RUBEM, Jackson. Irecê: História, Casos e Lendas; história, documentário. Salvador: Bureau, 1997.


SOUZA, Antônio Pereira. História e vida. In:_________. Fragmentos de história: contribuições teóricas sobre história e literatura. Rio de Janeiro: T. mais. oito, 2008, p. 11-22.


THEODORO, Mário (orgs). As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 anos após a abolição. Brasília: Ipea, 2008.



Referência:

SILVA, J. O. Sinésia Caldeira Bela: as raízes do passado de uma mulher negra que ainda estão presentes no município de Irecê. Irecê - Bahia: UNEB - Universidade do Estado da Bahia - Campus XVI - Irecê. (Monografia), 2011.