sexta-feira, 11 de março de 2011

Sinésia Caldeira Bela*

       

          










          
         

          Todos nós possuímos uma história, pois vivemos um presente que estabelece um movimento dialético com um passado que faz parte das nossas relações sociais. Por isso, se entende que, é através das nossas lembranças, da nossa trajetória, e principalmente, das nossas constantes relações com o ambiente que nos rodeia, como também por meio das diferentes relações estabelecidas com outros homens que construímos a história.

          No âmbito dessa discussão, verifica-se que a história da cidade de Irecê, assim como a própria história do nosso País é retratada a partir de uma única visão, o olhar do colonizador, pois, se entende que é a partir da ótica de alguns desbravadores que chegaram à cidade de Irecê, que a história do nosso município é explicada. E por isso, não há uma reflexão a partir da história, mas, relatos de algumas histórias sem levar em consideração o sujeito como construtor das mesmas, o sujeito histórico.


          Nesta perspectiva, se vê a importância de se falar em Sinésia Caldeira Bela, uma antiga moradora da cidade de Irecê, que teve grande importância na organização do atual bairro baixão de Sinésia. Pois, analisa-se que assim como a tradicional família Dourado, que tanto se ouve falar e prestigiar na cidade de Irecê, com nomes de ruas, praças, escolas e avenidas, faz-se necessário saber que Sinésia pode contribuir para o enriquecimento da história desta cidade, haja vista que a mesma cooperou para, e faz parte da história e historiografia deste município.


          Segundo Souza (2008),

[...] temos consciências de que não somos os únicos no mundo e, mais ainda, que todos nós tivemos nossos antepassados que se distanciaram há séculos e séculos do nosso hoje. Contar como foram seus passos, suas alegrias, suas tristezas, suas lutas, contar o seu dia-a-dia, cada instante do viver individual e social, fazer isso é uma impossibilidade. Isso, contudo, não impede que se reconheça que somos frutos de um esforço cotidiano do querer viver que cada um dos nossos antepassados desenvolveu. Conhecer esse passo é dever de cada um de nós. (SOUZA, 2008, p. 13).
                                     
          Sinésia Caldeira Bela foi uma mulher bastante conhecida na cidade de Irecê, e ainda é por algumas pessoas mais velhas do bairro baixão de Sinésia, pois, conforme entrevistas realizadas com as suas duas filhas Joselita Maria da Conceição e Adelícia Caldeira da Silva, sua mãe era uma pessoa bastante caridosa, e tinha uma relação amistosa com todas as pessoas do bairro, o que a tornava uma pessoa significativamente querida na comunidade.


          Segundo suas filhas,

[...] a convivência dela [Sinésia Caldeira Bela] era convivência com deus e o mundo, daqui até ni Irecê, era convivência dela era com deus e o mundo... ela nunca teve problema com pessoa nenhuma né...e a convivência dela era ajudar as pessoas de necessidade, ela não podia ver uma pessoa sofrer pra ela num ajudar, se ela visse uma pessoa ali nu, ela tinha que ajudar, se ela visse passando fome, ela tinha que ajudar, ela num podia ver a pessoa sofrer né, e foi uma pessoa que apenas deu muita saúde prá muitas pessoa, aqui, ni irecê, no baixão né, pessoas que vinha de fora, doente, ela dava diz o remédio né pelo saber dela que ela tinha ela dava remédio a muitas pessoa [...] (Joselita Maria da Conceição, Março de 2010).
[...] era uma pessoa qui qui tinha o coração muito bom, ela não podia ver gente sofrer de jeito nenhum, que ela ajudava o povo [...] (Adelícia Caldeira da Silva, Março de 2010)
          Humilde, batalhadora, caridosa. Estas são algumas características de Sinésia Caldeira Bela. Um exemplo de mulher negra, que trabalhava na roça para dar o sustento da sua família, era uma mulher avó, avô, mãe, pai, tia, tio. Ela era uma mulher batalhadora e preocupada com a subsistência da sua família, e por isso não mediu esforços, não fugiu do trabalho árduo, procurou na medida do possível lutar pela sobrevivência dos seus familiares.


          Sinésia foi um exemplo de vida para os seus filhos e filhas, como também para os seus netos e netas, e continua sendo para os seus bisnetos, e as novas gerações que compõem a sua família, assim como para aquelas pessoas que conheceram a bravura e a garra de Sinésia durante a sua vida.


          A história nos mostra que, para entender o que aconteceu num determinado percurso histórico, faz-se necessário analisar, e principalmente investigar a história para compreendê-la. Por isso, para entender a história de Sinésia Caldeira Bela, é preciso analisar o legado construído por ela durante sua vida.

          Sinésia chegou à Irecê, nos seus primeiros meses de vida, ou seja, ela era recém-nascida e tinha aproximadamente 6 meses de idade. Conforme depoimento de suas filhas Joselita Maria da Conceição (79 anos), Adelícia Caldeira da Silva (71 anos), e parentes mais próximos da família, Sinésia, chegou a estas terras juntamente com o seu pai, Sabino André Caldeira, o mesmo Sabino Badaró, que Rubem (1997) cita em seu livro Irecê: História, casos e lendas; história, documentário. Quanto à mãe de Sinésia, sabe-se que a mesma se chamava Jesuína Maria Caldeira, no entanto não existem maiores informações sobre ela.


          Na época em que Sinésia e seu pai já se encontravam nessas terras, Irecê se chamava Caraíbas, ou como bem afirma Rubem (1997) "lagoa das caraybas, como era conhecida por uns, ou Brejo das Caraíbas, como era conhecida por outros, ou simplesmente Caraíbas".


          Aqui, ela Sinésia se casou duas vezes, mas não foi propriamente um casamento como o que conhecemos hoje, com cerimônia numa igreja, ou mesmo no chamado, casamento civil. Seu primeiro marido se chamava Francisco de Oliveira Bela, e o segundo Bejamin Francisco da Silva.


          Já casada e com filhos Sinésia se instalou com a sua família num local onde os mesmos denominaram Pau-d’arco, com o passar do tempo ficou conhecido como Fazenda Baixão de Sinésia, e mais tarde recebe a denominação apenas de bairro Baixão de Sinésia. Acredita-se que antes de Sinésia vir para o lugar que hoje é o bairro Baixão de Sinésia, ela tenha residido em algum outro ponto geográfico da atual cidade de Irecê, porém não existem maiores informações sobre essa passagem de Sinésia por outros espaços desta região.


          No entanto, sabe-se que o bairro Baixão de Sinésia era um local ainda nativo, sem desenvolvimento e com a carência de serviços básicos como, instalações elétricas, encanação de água, serviço de saúde, saneamento básico, e principalmente sem escola.


          Das duas relações maritais que Sinésia teve nasceram Joselita Maria da Conceição, Adolfo e Angelina Maria da Conceição, ambos filhos de Francisco de Oliveira Bela. Nasceram também, Adelícia Caldeira da Silva e Amaro Caldeira da Silva, ambos filhos de Bejamin Francisco da Silva.


          Contraditoriamente, apesar dos dois relacionamentos que dona Sinésia teve, no decorrer dos seus últimos dias de vida, a mesma criou os seus filhos sozinha. Primeiro porque ficou viúva do primeiro marido muito cedo, segundo porque, o segundo marido não assumiu propriamente um papel de pai para os seus filhos. Ficando a cargo de dona Sinésia o sustento, e a manutenção da sua família.


          Não se sabe ao certo, se dona Sinésia durante a sua trajetória de vida teve outros filhos, pois não existem documentos e registros que possam confirmar o possível nascimento de outros filhos da mesma. O que se pode afirmar atualmente é que apenas três dos seus cinco filhos citados, se encontram vivos, os quais são: Joselita Maria da Conceição, Adelícia Caldeira da Silva e Amaro Caldeira da Silva. Segundo os filhos de Sinésia, a sua mãe faleceu em 1984 com 82 anos de idade, devido problemas de saúde.


          O bairro Baixão de Sinésia era uma referência em festejos cultural-populares na antiga Caraíbas, atual cidade de Irecê, ao passo em que o "reisado", o "candomblé", e o "caruru" eram as principais festividades que dona Sinésia e os seus familiares realizavam. No entanto, entre as festividades realizadas atualmente, constata-se que somente o "reisado" ainda permanece na tradição dos moradores, mas não com tanta frequência como antigamente, ao tempo em que estes costumes estão sendo aos poucos desestruturados e esquecidos por grande parte dos moradores do bairro, como também pelos próprios familiares de Sinésia.

          Uma tradição tão relevante e ao mesmo tempo, característica do baixão de Sinésia não pode ficar no esquecimento, ao passo em que é também o próprio nome de Sinésia, e todo o trabalho realizado por seus familiares durante sua trajetória de vida, que vai sendo esquecido, pois, foi com a presença e incentivo dela nos festejos, principalmente no reisado, que o bairro ganhou destaque na cidade de Irecê.


          Diante disto, percebe-se que atualmente os próprios moradores do bairro baixão de Sinésia não conseguem compreender a importância de dona Sinésia para o município de Irecê, uma vez que muitas destas pessoas, principalmente os mais jovens, nem sabem quem foi Sinésia. Infelizmente, se não conhecem a história de Sinésia, concerteza não faz parte de seus conhecimentos a história do próprio bairro, que historicamente tem como referência a própria Sinésia.


          É neste contexto, que se vê a importância de se falar em Sinésia Caldeira Bela, para, através desta indignação com a atual história, contribuir para uma nova reescrita da história da cidade de Irecê que excluiu Sinésia do processo histórico de formação da mesma, ao passo em que, se pretende trazer ao conhecimento de todos os munícipes de Irecê, um pouco da história desta mulher negra que realmente fez história no município e deixou vestígios para a sua construção.


          Sinésia Caldeira Bela possui um espaço na história do município, mas se faz necessário deixar claro que não é objetivo deste trabalho transformá-la aqui numa heroína, e sim revelar, especialmente aos ireceenses, que outras pessoas , incluindo trabalhadores e trabalhadoras, construíram a história deste município e não apenas algumas poucas famílias da dita elite Ireceense, como os Dourado, por exemplo.


          Dessa forma, entende-se que apesar das mesmas não fazerem parte do centro das atenções financeiras, políticas, e, principalmente, econômicas do município, desenvolviam por meio dos seus moradores um modo de viver próprio, que não estão inseridos nos livros que retratam a história deste município, mas ainda se encontram na memória das pessoas mais velhas que conviveram e conheceram Sinésia Caldeira Bela. Por isso mesmo, faz-se necessário que seja escrita e socializada com a população do município de Irecê, para que as raízes do nosso povo ireceense não sejam esquecidas, mas sim valorizada e lembradas na história.


          Diante disso, se entende que a história não pode ser compreendida, e muito menos escrita sem buscar a sua objetividade. Ou seja, é preciso um esforço para registrar e analisar o passado e o presente sempre buscando o que a coisa é e não o que as pessoas querem que ela seja. Por isso, faz-se necessário que existam interpretações da história, no intuito desta se tornar valorizada perante a sociedade e, não simplesmente atender a uma parte desta sociedade.


          Neste contexto, analisa-se que, alguns livros que retratam a história de Irecê, infelizmente deixa uma parte da sociedade ireceense a mercê desta história. O que se percebe é a existência de uma história hierarquizada, onde, uma elite faz parte da história. Enquanto isso, os trabalhadores e, as pessoas simples que impulsionaram o desenvolvimento da cidade de Irecê, infelizmente são retratadas como alguém que esteve por aqui, e isso quando ainda se menciona alguma pessoa simples que participou do processo histórico de formação desta cidade.


          No livro, Irecê: História, casos e lendas; história, documentário, do escritor Jackson Rubem, é possível perceber uma menção sobre uma mulher chamada Sinésia, no capítulo que se intitula Cultura. Para quem conhece um pouco da trajetória de Sinésia Caldeira Bela, sabe, e, identifica que, aquele fragmento de texto se remete a mesma. No entanto, só aparece no texto, o nome Sinésia.

          Para a maioria da população de Irecê, e a sociedade em geral, Sinésia será uma pessoa qualquer, pois não aparece o seu sobrenome, e nem a sua história, e muito menos relatos sobre sua trajetória e estada em Caraíbas. Para aqueles que não sabem da importância de Sinésia Caldeira Bela para a história deste município, o nome Sinésia relatado no livro de Jackson Rubem não terá grande relevância, uma vez que, pode ser, conforme a interpretação de cada indivíduo, qualquer mulher chamada Sinésia que está presente no livro do referido autor.


          O que se percebe é que a história do município de Irecê tem um compromisso, com as pessoas que estão no poder, ou seja, com a família dita tradicional deste território, ofuscando assim, a contribuição de uma minoria trabalhadora que também participou do processo histórico de formação desta cidade. Contradizendo, a afirmação do principal expoente da história dessa cidade, quando o mesmo afirma que:

A função deste livro [ao se referir a Irecê: História, casos e lendas; história, documentário] é resgatar a memória de Irecê. É mostrar a verdade, somente a verdade, acerca da história da mundialmente conhecida Capital do Feijão, sem nenhum interesse em beneficiar a quem quer que seja [...] (RUBEM, 1997, p. 25)
 
          É importante salientar que a mulher não tinha muito espaço na sociedade na época de Sinésia, uma vez que muitos direitos e deveres sociais ainda não tinham sido conquistados pelas mesmas, que sofriam sérios preconceitos. Como por exemplo, o seu espaço se restringir aos afazeres domésticos, e a criação dos seus filhos, e isto era para uma elite, pois muitas mulheres, assim como Sinésia Caldeira Bela, trabalhavam arduamente em serviços pesados, como o trabalho na roça.


          Como bem afirma a sua filha, "minha mãe era uma pessoa muito excelente era uma pessoa que...vivia com todo mundo fazia muitas caridade ao povo era uma pessoa muito trabalhadeira na roça" (Adelícia Caldeira da Silva, Março de 2010).


          Portanto, investigar as memórias de Sinésia Caldeira Bela significa discutir uma história local que não está inserida nos livros da história do município de Irecê. É dar voz a uma pessoa que representa o povo, a massa, uma classe que esta submetida aos interesses de outras classes sociais. É, além disto, debater uma história local no território de Irecê, sobre uma mulher negra que teve um papel bastante relevante neste município, e que por isso, possui uma importante trajetória histórica que faz jus o seu conhecimento pela sociedade.


          Nesse sentido, a partir do momento em que as memórias de Sinésia Caldeira Bela chegar ao conhecimento da sociedade, e principalmente da população Irecense, entende-se que haverá outra maneira de interpretar a história de Irecê, ao passo em que, através deste trabalho busca-se contribuir com um novo capítulo para a história deste município.



A História do Bairro Baixão de Sinésia: Repensando a História do Município de Irecê**



          Neste capítulo, pretende-se apresentar a história do bairro Baixão de Sinésia, mas, ao mesmo tempo a discussão vai abranger como Sinésia Caldeira Bela, a matriarca deste lugar, organizou este bairro que receberá o seu nome.


          Enquanto, o bairro Baixão de Sinésia estava passando por todo um processo de organização estrutural, e auto-organização dos seus moradores, nesse mesmo período, Caraíbas, também sofria uma série de mudanças, principalmente na esfera política, ao passo em que foi num cenário de muitas intrigas, brigas políticas coronelistas, e busca de poder, que o Arraial de Caraíbas, depois Vila Irecê, e por fim Cidade de Irecê se consolidaria, e ganharia a sua emancipação política.

Do início dos anos vinte até o início dos anos trinta, havia, no enorme município de Morro do Chapéu, duas facções políticas distintas. Os “coques”, era o apelido dado aos partidários do coronel Antonio de Souza Benta. Os “memés”, assim chamados todos os correligionários do coronel Terêncio Marques Dourado. Faustiniano Lopes Ribeiro candidatou-se para uma eleição em Morro do Chapéu a qual mudaria completamente, anos mais tarde, toda a história política [da cidade de Irecê, pois este viria a ser o primeiro prefeito desta cidade]. Faustiniano que contava com o apoio do coronel Teotônio Marques Dourado disputou a eleição com José Martins de Araújo, que era apoiado pelo coronel Antônio de Souza Benta. A eleição foi no ano de 1923. Faustiniano recebeu votos não só de Morro do Chapéu, mas também de América Dourada e do Arraial de Caraybas e outros lugarejos. Foi o grande vencedor. Mas sua vitória era continuamente contestada pelo lado oposto. Anos depois de assumir o mandato, continuava os distúrbios em Morro do Chapéu. Faustiniano, por causa disso, se viu obrigado a recorrer a Terêncio Dourado, comandante geral da polícia em Salvador. Conseguiu o apoio do amigo. Logo chegavam a Morro do Chapéu, comandados pelo tenente Macedo, dezenas, se não centenas, de soldados bem armados, os quais passaram a praticar uma série de arbitrariedades, espancando e atirando em muitas pessoas. O coronel Antônio de Souza Benta ficou extremamente indignado com as arbitrariedades cometidas pelos soldados de Terêncio Dourado. Mandou então um telegrama ao governador, relatando o que estava acontecendo. Mas o governador não lhe deu a menor atenção. Revoltado, o coronel Benta decidiu acabar com aquela situação por conta própria. Montou um Quartel General nas Serras do Martins Afonso e começou a mandar correspondência secreta para diversas localidades. Não demorou muito e armas de todos os tipos começaram a chegar em suas mãos. [...] O objetivo era tomar o poder das mãos de Faustiniano, atacando a prefeitura. O governador ficou muito preocupado diante da iminência de um derramamento de sangue em Morro do Chapéu, cidade pacífica. Mandou chamar os principais envolvidos na luta e propôs uma independência política para Irecê, a partir do ano de 1933, em troca de paz entre os dois lados rivais. (RUBEM, 1997, p. 50-51).

          De acordo com Rubem (1997) Caraybas saiu da condição de arraial, no ano de 1926, e entrou na condição de Vila, com o nome de Vila Irecê. Apenas sete anos depois, a Vila foi transformada em cidade, pois a emancipação política de Irecê aconteceu definitivamente em 1933, uma vez que, a Vila Irecê era subordinada ao município de Morro do Chapéu.


          Neste contexto, percebe-se claramente como a história de Irecê é retratada. O autor se remete a um fato ocorrido em Morro do Chapéu para explicar como se deu a emancipação política de Irecê, que se constituiu num acordo político entre grupos rivais interessados em conquistar poder e status nessa região. Não pretende-se afirmar que acontecimentos históricos não sejam necessários para a compreensão de determinados fatos e acontecimentos. Mas, é preciso salientar que os acontecimentos e fatos importantes de uma determinada época, são partes da história de Irecê, pois indivíduos que não participaram diretamente dos acontecimentos, ditos relevantes também fizeram e fazem história.


          Por isso, se a história do bairro Baixão de Sinésia está inserida nesse percurso histórico, faz-se necessário discutí-la, pois não se trata de um processo isolado da história de Irecê, e sim, parte integrante da mesma, pois sujeitos concretos participaram ativamente dessa construção.


          O que se percebe na história de Irecê, é um verdadeiro interesse de classe, a partir da valorização dos acontecimentos centrais, ou seja, a política e os nomes dos coronéis que giram em torno do poder e da gestão das cidades ou vilas. No âmbito dessa discussão, analisa-se que a história desse município é escrita a partir desses acontecimentos centrais liderados pelas elites ireceenses, por isso, uma simples aglomeração de pessoas da periferia, a classe trabalhadora, no bairro Baixão de Sinésia, não participam da mesma, simplesmente por estarem distantes desses acontecimentos que são liderados pela classe burguesa de Irecê.


          A história do bairro Baixão de Sinésia é um exemplo da contradição existente na história de Irecê, pois durante muito tempo, este bairro esteve isolado do centro da cidade. Isso porque, os que lá moravam, para muitas pessoas de uma elite que já se fazia presente no município, não faziam parte dos acontecimentos importantes do centro da cidade. Isso é percebido a partir da própria história deste município, que privilegia os acontecimentos, e os feitos centrais de uma elite.
          Analisa-se que a história do bairro Baixão de Sinésia está intimamente ligada à história do município de Irecê, pois, verifica-se que em meados do século XIX, já ocorriam muitas imigrações de famílias e trabalhadores para estas terras que se conheceriam futuramente como Irecê.


          Segundo Jackson Rubem,

Durante a seca de 1877, centenas de famílias migraram de um lado para outro em busca de melhora. A Lagoa das Caraybas [atual cidade de Irecê] era bem vista por muitos migrantes, por causa da água fácil em suas cacimbas que outrora enchiam cochos, matando a sede de milhares de animais e de dezenas de trabalhadores [...] (RUBEM, 1997, p. 39).

          Conforme o mesmo autor,


Ainda no ano de 1877, chegou em Lagoa das Caraybas uma caravana composta de Antônio Alves de Andrade, Hermógenes José Santana, Sabino Badaró, Joaquim José de Sena, Deoclides José de Sena, José Alves de Andrade, Benigno Andrade, juntando-se a alguns trabalhadores que permaneceram aqui, mesmo depois que os arrendatários, seus patrões, foram embora. Chegaram em Caraíbas decididos a permanecer, pois neste lugar encontrariam tudo que precisavam para sobrevivência. Muita caça, mel e fartura de água nas cacimbas, além de solo ótimo para se “por roça”. Habitaram em princípio, embaixo do pé de quixabeira que fica na avenida Tertuliano Cambuí, no quintal de dona Nita. Depois construíram suas casinhas de enchimento. (RUBEM, 1997, p. 39).
  
          Diante desse fato histórico evidenciado por Rubem (1997), pode-se hipoteticamente dizer que, possivelmente alguns familiares de Sinésia Caldeira Bela podem ter migrado junto com essas centenas de famílias e trabalhadores para estas terras. Mas, a hipótese se confirma, pois, Sabino Badaró, citado pelo mesmo autor em seu livro Irecê: História, casos e lendas; história, documentário, é, na verdade Sabino André Caldeira, o pai de Sinésia Caldeira Bela.

          Por isso, a partir das evidências históricas enfatiza-se que a história do bairro Baixão de Sinésia está intimamente ligada à história do município de Irecê, pois, uma das pessoas responsáveis pela organização desse bairro foi Sinésia Caldeira Bela, a filha de Sabino André Caldeira, ou como o próprio Rubem (1997) denomina, Sabino Badaró.


          Segundo informações de parentes de Sinésia Caldeira Bela, o terreno onde se encontra o atual bairro Baixão de Sinésia foi comprado por Francisco de Oliveira Bela, o primeiro marido de Sinésia.

          Após, a morte do senhor Francisco, Sinésia se torna legalmente a proprietária das terras, mas estas por sua vez não possuíam documentação. Como o passar dos tempos, houve a necessidade de fazê-lo. Isso pode ser observado, no documento que ratifica a compra, e a venda do terreno, no Cartório do Registro de Imóveis e Hipotecas, da cidade de Irecê.


          Depois de algum tempo, Pau d’ Arco, futuramente Baixão de Sinésia, começa a ganhar aspectos de um bairro, pois algumas casas de enchimento são erguidas no terreno, e outras pessoas, além dos familiares de Sinésia também começam a viver no local, pois Sinésia doava um pedaço de terra para algumas pessoas que não tinham onde morar.


          Inicialmente este bairro se chamava Pau-d’arco, devido duas árvores grandes de Ipê ou, Pau-d’arco que existiam nas imediações do terreno. Com o passar do tempo fica conhecido como Fazenda Baixão de Sinésia, e mais tarde recebe a denominação apenas de bairro Baixão de Sinésia.


          O que se sabe, é que, este local, antes de se tornar o bairro, tinha uma característica nativa, era praticamente uma floresta. Além disso, possuía uma grande área territorial com ótimas terras para o cultivo de sementes e grãos. Sendo assim, pode-se afirmar que, o bairro Baixão de Sinésia antigamente era uma região praticamente rural, pois, analisa-se que uma das principais formas de sobrevivência das pessoas era por meio do trabalho na roça.


          Esse trabalho era desenvolvido tanto nas imediações do terreno que abrangia todo o bairro, quanto para os fazendeiros vizinhos do lugar. Ou seja, as pessoas que moravam no bairro principalmente os familiares de Sinésia, trabalhavam para si próprios nas terras que pertenciam a Sinésia, como também trabalhavam para outras pessoas influentes da antiga Caraíbas, nas lavouras de feijão.


         Percebe-se que o bairro Baixão de Sinésia recebe o nome da própria fundadora, pois a figura de Sinésia Caldeira Bela ganhava destaque em Caraíbas, na medida em que, a Fazenda Baixão de Sinésia se tornava cada vez mais conhecida, ao ponto de se tornar referência em festejos cultural-populares como: o Candomblé, o Caruru e principalmente o Reisado.


          Este último perdura até os dias de hoje, mas não com tanta freqüência como antigamente, pois esses costumes estão sendo esquecidos, pois não há continuidade por parte dos seus praticantes. O candomblé acontecia aos finais de semana num espaço conhecido como capela, e foi construído por Sinésia Caldeira Bela. Essa capela conforme depoimentos de pessoas que conviveram com Sinésia, era uma espécie de lugar religioso.

A capela para Sinésia é como o templo evangélico para o pastor, e o templo católico para o padre [...] tirando o templo do pastor, ele sente dificuldade para a sua prática religiosa, tirando o templo do padre ele também sente, então tirando aquela capela de Sinésia, não é, aquela pequena base territorial ela também sentiria. [Elizeu Julindo da Silva, Novembro de 2010] 

          Já o reisado é um festejo organizado na comunidade desde 1954. É composto por homens e mulheres que na data apropriada, dia 25 do mês de dezembro, ao dia 06 do mês de janeiro saem em algumas casas do bairro, e em qualquer casa que o grupo for convidado para cantar as músicas festivas e tradicionais.


          O grupo de reis nasceu no bairro Baixão de Sinésia quando este ainda era conhecido como fazenda Baixão de Sinésia, e perdura a mais de meio século na cidade de Irecê. O grupo de reis do bairro Baixão de Sinésia representa aquilo que o povo tem de mais rico em sua tradição, ou seja, a cultura popular. Presépio, lapinha, cantigas, tudo isso faz parte da folia de reis.


          Para realizar as suas apresentações, o grupo usa roupas simples, acompanhadas de chapéus de palha, fitas de diversas cores e uma toalha de renda no pescoço. Os instrumentos tradicionais do reisado do baixão de Sinésia são a viola de dez cordas, o pandeiro e a caixa de folia de reis.


          Entre às cantigas mais tradicionais, se destacam o Reis de Porta, onde se pede autorização ao dono da casa para entrar, e Reis da Lapinha, que conta a história do nascimento de cristo, e só é cantado nas residências em que o presépio é construído.


          Até cinco anos antes da morte de Sinésia Caldeira Bela, em 1984, o grupo de reis teve um apogeu. No entanto, houve um declínio dessa tradição com o passar dos anos.

Era uma tradição muito forte, mas com o crescimento da cidade essa tradição foi se perdendo. Antigamente existiam mais casas do que comércio no centro da cidade. Como o reisado era do Baixão, saía de lá e vinha para a cidade. Com o passar dos anos, ele foi ficando só por lá. [Entrevista de Elizeu Julindo da Silva, neto de Sinésia Caldeira Bela, a Juliany Mendes, para o Jornal Folha da Bahia, em 2006].  

          Praticar esses festejos cultural-populares era uma das formas que as pessoas do Baixão de Sinésia procuravam para se divertir, porém, faz-se necessário enfatizar que, essas comemorações eram mais do que diversão. Ao passo em que essas festividades, se constituíam num momento de devoção, de crença e fé, que para muitas pessoas era uma forma de encontrar forças para enfrentar o seu dia-a-dia de muito trabalho.


          No Baixão de Sinésia muitas pessoas trabalhavam na roça, sobreviviam dela, era a chamada agricultura de subsistência. Na roça, as pessoas cultivavam principalmente o feijão e o milho, que são sementes mais resistentes ao nosso semi-árido baiano.


          Para desenvolver essas atividades, as pessoas dependiam principalmente da água das chuvas. Mas também precisavam de água para o próprio consumo, e, além disso criavam animais, as chamadas cabras e bodes. Por isso, já que no local não existia ainda serviços de canalização de água, foi necessário abrir uma pequena fenda no chão, nas imediações da Fazenda Baixão de Sinésia, para armazenar água, a qual os moradores do bairro chamavam de tanque ou cacimba. Nesse local a água se tornou constante, pois minava do chão, existia possivelmente algum lençol freático nessa área.


          Essa era a fonte de armazenamento de água da comunidade, e foi durante muito tempo a única, pois antes dela, as pessoas precisavam caminhar longas horas até um poço numa propriedade de um sitiante, visinho ao bairro, que fornecia água para os mesmos. Por isso, os moradores, a grande maioria filhos, netos e conhecidos da família de Sinésia Caldeira Bela, se reuniam para limpar o tanque, e conservá-lo, pois esta era a fonte de água para beber, tomar banho, enfim, para manter a sobrevivência.


          Observa-se que mesmo diante das dificuldades, os moradores do Baixão de Sinésia buscavam estratégias de sobrevivência na mata nativa de Irecê, ainda conhecida como Caraíbas, e essas estratégias tinham sempre a influência de Sinésia Caldeira Bela, pois ela era a líder da comunidade, a iaia para os seus netos.


          Mas, ao mergulhar na história deste bairro, percebe-se que a importância de Sinésia Caldeira Bela, vai além de uma simples liderança, foi ela na verdade, que teve a iniciativa de organizar essa comunidade, mesmo que sem perceber foi Sinésia, uma mulher negra, que carregava consigo as marcas de um período no Brasil onde a mulher negra nem se quer tinha espaço na sociedade, que começou a transformar o lugarzinho esquecido por muitos, no bairro Baixão de Sinésia.


          Ela, diante de todas as dificuldades impostas pela vida, e por suas condições materiais, não desistiu de lutar. E uma das formas que utilizou para lutar, foi através do trabalho na roça, pois não tinha outra alternativa para mesma naquela época. E, foi assim também que criou os seus filhos e netos, trabalhando.


          O bairro Baixão de Sinésia é o resultado de um legado deixado por Sinésia Caldeira Bela ao longo de sua trajetória de vida. Por isso, a história deste bairro esta intimamente entrelaçada ao processo histórico de Sinésia na cidade de Irecê.


          Nesse sentido, é preciso salientar que não se pode falar e nem discutir sobre a história de Irecê, se as raízes historiográficas deste município não fazerem parte desse diálogo. Assim, entende-se que, propondo novas reflexões a cerca da história desse município, enfatiza-se a necessidade de se fazer análises e interpretações de novos fatos e acontecimentos que merecem destaque e reconhecimento por parte da sociedade, e principalmente dos munícipes ireceenses.
CONCLUSÃO

 

          Muito se questionou e ainda se questiona a validade da História Oral, enquanto metodologia de pesquisa no âmbito acadêmico, pois uma das suas categorias de análises é a entrevista, alicerçada nas falas e percepções do sujeito entrevistado, ou seja, as suas memórias.


          Conforme o principal expoente e defensor da História Oral como metodolgia de pesquisa, aqui no Brasil, o Professor José Carlos Sebe Bom Meihy, a existência de um grupo de pessoas a ser entrevistadas é condição para a pesquisa em História Oral, mas ressalta que não é apenas a entrevista ou outra fonte oral que caracteriza esse tipo de pesquisa. Mais do que isso, a História Oral dá a muitos setores excluídos da sociedade, a condição de reivindicar o seu lugar na história, enfim, exigir os seus direitos, perante a sociedade que os excluiu.


          Diante disso, quando o projeto de pesquisa intitulado "Memórias de Sinésia Caldeira Bela" foi elaborado, não imaginava a dimensão que as indagações que vinham sendo feitas foram tomando. Pensava-se que seria apenas mais um trabalho de conclusão de curso, a ser defendido para conseguir a graduação, mas as descobertas foram demonstrando que a pesquisa é um momento de análise, e questionamento do sujeito pesquisador consigo mesmo, e com as evidências que surgem nesse processo.


          Realizar uma pesquisa a partir da investigação das "Memórias de Sinésia Caldeira Bela" não foi nada fácil. Primeiro porque, muitas das pessoas mais velhas que poderiam me ajudar na pesquisa, a partir das suas lembranças de fatos e dados antigos, e até maiores informações sobre o meu objeto de pesquisa já haviam falecido, há muito tempo.


          Segundo, porque, as pessoas entrevistadas foram fornecendo muitas informações que precisavam ser analisadas com muito cuidado, e mesmo confrontados com outros dados e fontes de informações, como por exemplo, registros sobre o lócus de pesquisa, o bairro Baixão de Sinésia, e bibliografias existentes sobre a própria história de Irecê, ao passo que, durante o processo de análise dos dados verificou-se que o objeto de estudo estava intrinsecamente ligado a história dessa cidade.


          Entende-se que Sinésia Caldeira Bela possui um espaço na história do município de Irecê, porém se faz necessário deixar claro que não é objetivo desse trabalho transformá-la aqui numa heroína. Mas,entender que a história não pode ser compreendida, e muito menos escrita com um único olhar. Diante disso, questiona-se que é preciso existir interpretações da história, no intuito desta se tornar valorizada perante a sociedade e, não simplesmente atender a uma parte desta sociedade.


          Nessa perspectiva, investigar as memórias de Sinésia Caldeira Bela significou discutir uma história local que não está inserida nos livros da história do município de Irecê. É, além disto, debater uma história local no território de Irecê, sobre uma mulher negra que teve um papel relevante nesse município, e que por isso, possui uma importante trajetória histórica que faz jus o seu conhecimento pela sociedade.


         Portanto, quando as memórias de Sinésia Caldeira Bela estiverem ao alcance da sociedade, e principalmente da população Irecense, entende-se que haverá outra maneira de interpretar a história de Irecê, ao passo em que, através desse trabalho busca-se contribuir com um novo capítulo para a história desse município, e deixar pistas para que outros possam ampliar esse estudo, com novas descobertas.


REFERÊNCIAS



BONFIM, V.M.S. A identidade contraditória da mulher negra brasileira: bases históricas. In: NASCIMENTO, Elisa Larkin (orgs.). Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009, p. 219-249. (Sankofa: matrizes africanas da cultura brasileira; 4).


DI GREGORIO, Maria de Fátima Araújo. Memória Coletiva: estratégias de preservação da identidade cultural dos imigrantes italianos em Itiruçu-BA. Salvador: EDUNEB, 2003.


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HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. 26 ed. São Paulo: Companhia da Letras, 2008.


KONDER, Leandro. O que é dialética. São Paulo: Brasiliense, 2006. (Coleção primeiros passos; 23).


MEIHY, José Carlos Sebe Bom. História oral: como fazer, como pensar. São Paulo: Contexto, 2007.


MENDES, Juliany. Grupo de reisado mantém a tradição acesa em Irecê. Folha da Bahia. Irecê-Bahia. Fevereiro. 2006. Cultura, p. 09.


MENESES, U.T.B. A história, cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. Rev. Inst. Est. Bras., SP, 34: 9-24, 1992. Disponível em: <http://www.ieb.usp.br/revista/revista034%5Crev034ulpianomenezes.pdf>. Acesso em: 03 de Novembro de 2010.


MUNANGA, Kabengele. O negro no Brasil de hoje. São Paulo: Global, 2006. (Coleção para entender).


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SOUZA, Antônio Pereira. História e vida. In:_________. Fragmentos de história: contribuições teóricas sobre história e literatura. Rio de Janeiro: T. mais. oito, 2008, p. 11-22.


THEODORO, Mário (orgs). As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 anos após a abolição. Brasília: Ipea, 2008.


FONTES ORAIS.



Adelícia Caldeira da Silva, vídeo e áudio [3 minutos e 23 segundos]. Irecê: Março de 2010.

Elizeu Julindo da Silva, áudio [13 minutos e 43 segundos]. Irecê: Novembro de 2010.

Joselita Maria da Conceição, vídeo e áudio [13 minutos e 28 segundos]. Irecê: Março de 2010.


Referência:

SILVA, J. O. Sinésia Caldeira Bela: raízes do passado de uma mulher negra que ainda estão presentes no município de Irecê. Irecê-Bahia: UNEB-Universidade do Estado da Bahia (Monografia), 2011. 


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